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O Interno Feminino

Divagações e reflexões do mundo no feminino. Não recomendado a menores de idade ou a pessoas susceptíveis.

Desta água não beberei

Avatar do autor tsetse, 08.07.08

Sempre tive cuidado em não dizer que nunca faria uma determinada coisa, pois a experiência ensinou-me que a vida dá muitas voltas e há circunstâncias (ou loucuras) inesperadas.

Lembro-me de ter uma amiga que era muito intransigente em relação a traições ou relações com chefes. Lembro-me de a ouvir chamar os piores nomes às amantes dos outros e de ridicularizar duas conhecidas nossas que começaram a namorar com os chefes (que por acaso até eram desimpedidos). Por muito que eu argumentasse, ela nunca cedia nas suas convicções. Um dia ela enlouqueceu (ou caiu em paixão, como preferirem) e traiu o namorado com o chefe, que por acaso era casado. Mais do que a história em si, todos criticaram o facto de ser ela, tão puritana e tão crítica em situações semelhantes, a entrar na história.

Acho que, no fundo, todos os que a conheciam bem ficaram profundamente desiludidos e com o sentimento de terem perdido horas a argumentar com ela em vão, pois, afinal, ela provavelmente não tinha acreditado no que tinha defendido. Se eu já tinha medo de dizer "desta água não beberei", depois deste episódio, comecei a evitá-lo ao máximo.

No entanto, tenho que admitir que me vejo agora numa destas situações. Eu sempre disse que jamais diria mal de um ex-namorado. Essa era uma daquelas certezas que eu achava que não poderia ser abalada. Por duas razões: porque dizer mal de um ex-namorado é por si só desacreditar a nossa capacidade de escolha; e porque partilhámos a nossa intimidade com ele e não devemos lavar a roupa suja em público de quem, algures, confiou em nós. Até ao dia em que tive um ex-namorado tão execrável, que, para além dos defeitos que já tinham sido detectados durante a relação (e que levaram ao seu fim), começou a mostrar outros que o qualificam como alguém sem o mínimo de escrúpulos, vergonha ou princípios. Ao fim de uns anos, era impossível manter-me calada sobre tal comportamento.

Aprendi, da pior maneira, que é fácil dizer "nunca", quando não se passou por situações extremas. Se calhar, existe mesmo "mau casting" (como diziam as minhas amigas, em conversas sobre o assunto) e pessoas que escondem os seus verdadeiros valores durante um determinado período de tempo. Se calhar, eu não avalio tão bem o carácter dos outros como pensava. Se calhar, eu tinha era tido sorte com todos os outros ex-namorados.

E, à medida que a vida vai passando, vai sendo cada vez mais difícil ter fortes convicções. Parece que há sempre alguma coisa (loucura ou cegueira passada, pessoas más, o que for) que nos empurra para o meio, para a vulgaridade dos politicamente correctos e dos clichés.
 

Tsetse

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